Pelas palavras...

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Não importa a visão da cidade/ E sua face atormentada dando voltas no quarteirão/ Nossos olhos erguidos além do concreto/ Vêem as copas das árvores e não espantam pássaros/ Também aprendemos a pousar na linha esticada/ Para ver o sol nascer.
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dimensões


Sei do segredo que contam as minhas mãos

Meu coração é pólen

Disperso da flor que nunca mais vi

E semeado silenciosamente entre os lábios das manhãs

Enquanto os pássaros passam sem tocar o chão

Não sei de onde vem e nem para onde vão

Mas fiz questão de olhar nos seus olhos

De dentro da minha própria escuridão

Que é apenas a noite em dimensões sem par

Preciso brotar nas estações

Em que as flores exalam seu líquido amargo

Porque o doce é apenas um gosto ao palato

Mas na essência, quase de sal

Encontro a fonte do largo amor a se banhar sob o sol

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Livro das dores


É por um sopro cansado que meu espírito escoa
Como um lustre de desbotadas lâmpadas
Despejando luzes mornas
Num assoalho sem tapete
Aquela ferida, que, sem querer eu tiro a casca
Toda vez em que seca
E toda a pele ao redor inflama
Num gesto de sombra dilatada a rotina me alcança
A voz da mente se espanta ao ser encontrada
Eis que a mão levanta
E começa a escrever

Admiração


Não tenho medo da chuva

Ao contrário, é dela que eu gosto

É por ela que eu me refaço em lágrimas quando me atormento

Ou apenas quando sorrio

Porque a tenho dentro de mim

E sei o quanto ela se parece com as estrelas

Dentro da chuva eu conduzo a tez do universo

Sou o lago onde a lua banhou seu sexo e pariu a noite

Dentro da chuva minha alma não sente saudade

Apenas amor...

Destino

Nada é por acaso... nem mesmo o amor.. aonde quer que eu vá...sinto que meu coração encontrou seu lugar!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Distância


...É como o sopro leve

Que me faz fechar os olhos

E deixa escorrer uma gota de saudade

Até o canto dos meus lábios entreabertos a te esperar!

De volta


Olhe para a larga presença da parede branca

Os riscos dissipados que se movimentam

A energia que se desprende

São nossos olhos que a tiram de lá

Quão lúcidos e conscientes

E é tão normal quanto pensar

Não precisamos de substâncias pra usar a mente

Mas me deixa triste ver este mundo infinito

Que se esconde nas coisas

Porque eu entro no lago

E sua superfície congela, me deixando no fundo

Vejo os outros passarem

Mas não sei se eles me vêem

Então apresso os meus passos pra seguir sempre junto

Embora minhas palavras sejam difíceis de compreender

Elas são como tubos de ar por onde respiro

E é com elas que eu quebro o gelo e volto

Voltar faz parte de mim

Mas outra parte maior me faz seguir pro fundo extenso de tudo

Não sei dizer se me perguntam sobre o que sei

Eu apenas sei que não há o que responder...

Temos diferenças, mas somos todos iguais

E por contradições se desenrola o viver

Estou numa casa de frente para o mar? Talvez...

Assim como é possível querer

E, feito a parede, tudo pode mudar

Sem deixar de ser e estar

Lugar seguro é onde a gente gostar

Estações...



"Há infinitas estrelas e infinitos olhos admirados, uns refletindo-se nos outros"

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Convés



Dias negros em que danço com a morte despida
Ela tem um colar afiado que machuca os meus sonhos
Ela veio no corredor que, há pouco era infinito
E tornou estreita qualquer vida...
De triste, ainda tem um carisma
Embargados nas suas águas sem portos
Cicatrizamos a inútil sala do horizonte
Apostos no convés onde os mastros já arearam velas
Acenando para a própria imagem que derrete
Metros à frente da proa
Frios segredos
Que me lançam na corte da piscina vazia
Fitando estrelas nos lábios da morte
Enquanto ela passeia pingando fel na minha língua
Tão bonita que não vale à pena seguir sozinho
Para ilhas breves
Sei que, quando, ela
Em declínio se pôr por trás de cada onda
Seus braços estendidos me levarão consigo
Pra dentro do mar gentil...
E ela dança
E me olha
Acho que ela sonha
E, se ela dorme...pode esperar até amanhã

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Por causa da garoa


Como podes não ser estrela?
Se uma parte da humanidade te vê brilhando
E a outra parte só não te vê porque dorme...

Ilha


É de noite

E eu fico ouvindo a chuva

E o som dos trovões, de um quarto escuro

Que me faz lembrar os quadros

Que eu nunca terminei

E eu cato os papéis no chão

Pra queimar meu coração

No próximo clarão de um raio

Uma taça de vinho tinto



Escrevo lastros de esperança
Porque meu peito, em estendidas fibras quase rebenta
E, sorvendo cada palavra feito uma taça de vinho
Eu ando em meio aos espinhos
Pra ousar na dor a física essência
Talvez, na medida em que eu a compreenda no exterior
Eu aprenda a suportar o frio que me corta por dentro das veias
Há uma vontade e uma força extrema em cada poema
Como uma família
Onde cada um senta em separadas cadeiras
Mas reunidos numa só mesa
Interligados os elos, eles se completam
Nos levam ao litoral e voltam
Deixando a cama pronta pra quando o sono chega

sábado, 25 de outubro de 2008

Perfume

Teu perfume

Não é o perfume de rosas

Que o meu olfato define dentro do seu limitado espaço na vida

Teu perfume me fascina

Porque é, ao todo, o simples cheiro de vida

Assim como a pele que se arrepia sem qualquer contato

E se ilumina

Outras vezes já senti

Mas sorvi mais em mim o lado escrito da poesia

Agora estou tão acordado

Que até posso dormir em paz

Teu perfume é amor

E o que é o amor?

Quando é bem mais do que estar sentindo

Teu perfume é o ar

E eu respiro...

De relance

Nessas raras noites

Em que passo por outras cidades

No banco traseiro do carro

Tenho a certeza de que os meus olhos brilham

Admiro as luzes e as vitrines como casas mágicas

Estou sempre à espera dos dias em que tudo é assim

Viajar me faz sentir o gosto translúcido

Da verdadeira harmonia de não precisar entender

E estar bem apenas por estar sentindo

Mensagens que vão vem e me carregam cada vez mais

Coisas que nem sempre hei de achar em livros e discos...

De relance escorre a chuva no pára-brisa

E as sombras da água passam por mim

E é assim que eu chego em casa

Porque eu moro através...



sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Cerimônia do amanhecer


Eu cubro a noite com as asas encurvadas de sonhos

E ouço o gemido nas glândulas de nuvens

Cuja tempestade desperta

É tarde apenas para o dia, que se encerra

Em ramos de sombra no céu

A madrugada ainda levanta

Sacudindo os cabelos

Moldando as ancas

Para receber o sexo quente do universo

Me sinto um lobo, sentado, na chuva

Uivando sonhos em silêncio

Lambendo as bordas dos lábios da lua

Com a língua de fogo

Cubro a noite, com meus olhos entreabertos

Feito o pôr-do-sol

Na meia-luz do poema que desnuda a carne

Sem ferir a alma, ainda tímida e suave

Qual desperta a pele intocada do amanhecer




quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Autêntico


Quanto mais eu leio

Mais entendo que as respostas não estão nos livros

E em nenhuma forma de conhecimento

Mas sim no que eu sinto a respeito

Devo estar atento a mim mesmo

A percepção através de todos os sentidos

Forma o conjunto pela qual nos relacionamos com o mundo


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Litoral


Meu livro de poemas, lançado no Rio Grande do Sul em julho de 2008!
(exemplares ainda disponíveis)

sábado, 18 de outubro de 2008

Monólogo secreto

Parte de mim é lâmina

Que exposta à luz

Produz hologramas na parede silenciosa da noite...

Nos mistérios da pele ardem sonhos

Riscos crepitados subindo na fogueira

Improvisada pelo sal dos meus olhos

Que se desmancha

Sou a sombra que o bosque esculpe nas vestes turvas do lago

Pra me acompanhar no escuro

Eu me projeto no fundo

E entre as plantas e pedras resguardadas de um sono líquido

Eu permaneço acordado

Mas isolado da falta vil dos desinteressados

Percebo que até os musgos umedecidos tem um sentido

Solitários compõem o abrigo dos espantados

Na sua verde solidão não existe definição para a minha

Os arpões são afiados dia-a-dia feito facas de cozinha

Apontados para o vão das costelas que emergem nas águas

O tesouro que procuramos é um baú de mágoas

Mas o sol que ilumina o caminho de crinas torna tudo espelhado

O tesouro é o invisível do que temos guardado, e entregamos...

Como a alma se entrega ao nirvana

Quando se encontra com a sua unidade

Que é a verdade na expansão sob os muros

Lada a lado com a sua metade

Antes de ir... Admiro os corais silenciosos

Ecoando o monólogo nas bolhas de ar que sobem do fundo

De mim... até parar

Esferas


Os cães começam correndo atrás de um coelho que nunca alcançam

E nem sabem se gostam

E nem sabem se odeiam o coelho

E continuam correndo porque os outros também correm

Mesmo que não vejam mais o coelho

Até o ponto onde não notam mais nem os outros

Então eles cansam e se desesperam

Porque não esperavam ficar tão longe de si mesmos

...Voltam caminhando...

E pelo fato de voltarem de cabeça baixa

Vêem a si mesmos nas poças d‘água

Uma força humilde os impulsiona

E eles saem correndo felizes

Mas agora para mostrar aos outros

Que a diferença não está na corrida

E sim no sentido, e naqueles que se acompanham

Ninguém deve ficar pra trás

sexta-feira, 17 de outubro de 2008


Estive sentado na ponte
Observando como a água passava
E os raios de sol formavam uma rede brilhante
Que pescava meus olhos
Pensei em alguém sentando ao meu lado
Trazendo nos lábios o céu rosado
Meus olhos amanheceram
Cobertos pela fina poeira de pólen
Desprendendo-se das árvores
Era como se elas talhassem a forma das nuvens
Fazendo cair os restos da tarde sobre mim

Fina essência


Ninguém nos ensinou a andar no gelo

Mesmo assim nossos pés não se queimam

Porque o frio do mundo

Não atinge nossos pensamentos

Nunca vou abdicar de um sonho

Mas a estrada que se segue é verdadeira

E, como não sabemos se ela realmente acaba

Faço questão de sonhá-la

Com meus pés descalços pra senti-la

E minhas mãos atadas ao seu íntimo

Apontando a direção pela força do instinto

Para seguir sem o destino que me aprisiona

Submerso num espaço dividido pela distância

Ao descanso, haveremos de encontrar

Na superfície da pele

A fina essência abrindo os poros

Para que respiramos o amanhecer

Entre os entrelaçados corpos

Entorpecidos pelo encontro de luzes

Entre os ramos


Estrela cadente que se emaranha entre ramos
Barco da manhã incandescente
Procura sombras para descansar seus olhos

Mas a falta do céu reduz os sonhos

E o tempo de dormir

É trocado pela mania de acordar sem luar

Parece fugir...

Estrela cadente
que se emaranha entre ramos
Entre nós estranhos desencontros

Nosso olhar por entre os galhos é instinto

E o instinto é vinho tinto em panos brancos
O valor é audaz
... Nosso olhar por entre os ramos é ainda mais

Vitrais


Diante dos vidros, o azul perplexo da antemanhã

Devolve aos olhos os visgos oscilantes do tímido sol

E a retina retrai

À mostra pela luz que cega e avança

A maré sobe

Como um soluço persistente rompendo a respiração

Um coração assustado que interfere nas orlas sutis

Um rastro de duna precipitada

Para sempre em grãos, na alma de mãos afoitas

Cujo a beleza se esconde por ser ainda maior

E não suportar a dor sem razão

De não poder segurar o instante

Mas a impressão é o lar das coisas que ficam em nós

O que sentimos é o que nos faz

Mais de uma vez voltar

Colocar as mãos nos vitrais

E abrir as cortinas da atenção